Que vazio é esse, que não acaba?


Alimentar um vazio, pode ser sim sobre comida. Mas, pensa comigo: sua mente pode estar cheia de "vazios". Seu coração, suas amizades, seu trabalho. Até mesmo a sua família - que tanto ocupa espaço preenchendo sua vida com memórias, carregadas de coisa alguma, com muitos "já passou" em caixas de todos os tamanhos. 

Sim, já passou, virou só um pensamento se desmanchando no ar. 

Sentimento de inadequação. Não se encaixa, não combina, não participa...não é bem-vindo e está lá, marcando presença com seu corpo, mas deixou em casa seus sentimentos verdadeiros, dentro de uma alma considerada pelos outros sempre equivocada. 

Estamos todos alimentando vazios, todos os dias, o tempo todo. Temos que vigiar a nossa mente SEMPRE. Agora observe a sua volta: quantas vezes você já olhou no celular hoje? Quem mandou mensagem, perguntando se você está bem? Que filmes assiste, quais músicas ouve? Quem são seus amigos mesmo? 

E essa minha ansiedade vai toda pra COMIDA. De novo e mais uma vez.

"Mas, quando começou? Por que você tem isso? Mesmo praticando corrida? Mas você não é obesa! Até parece, é só não comer e pronto!" 

É com essas frases prontas  - muitas vezes, acompanhadas de risos irônicos - que quem tem transtorno de compulsão alimentar confronta constantemente. 

Esse é o maior vazio que alimento: COMER! Sim, pão, bolo, feijão, omelete, frutas, chocolate, tudo. Não dá pra parar, nessa hora você não tem o controle de nada. Você fica a mercê de uma coisa, um sentimento, uma falta de razão consciente e inconsciente. 

Aí começa: triste por que comi, comi por que fiquei triste. Parece engraçado, né? Mas não é não. Aquilo vira uma prisão, uma triste prisão.

Há dois anos, quando me deparei novamente com "a Tal", estava sem trabalho. sem dinheiro, deprimida, poucas roupas me serviam (uma ou duas), evitando encontrar com família e conhecidos pra não passar pelo "Nossa, como você engordou!!". A medicação controlada tinha acabado, ir na consulta particular com a endócrino, não dava mais também. Aí vai: sem perspectiva de melhora, sem ânimo. Cheia...cheia de vazios! 

Sentei no chão e chorei. Olha...eu chorei...Disse pra mim mesma: "Eu preciso de ajuda...sozinha eu não consigo!". 

Em consultas gratuitas da rede pública (SUS) com psiquiatra, terapia, medicação. Retornar com firmeza a corrida de rua. Parar e olhar pra comida TODA VEZ que se senta pra fazer uma refeição. E claro: ter uma rede de apoio. Família? Nem sempre. Amigos!! A família que escolhemos e na qual nos escolhem para fazer parte e sentir, pelo menos em alguns momentos de lucidez, a sensação de participar de algo maior. Assim, como dizem: "Um dia de cada vez!". 

Eu digo: "Uma refeição de cada vez! Calma, respira, observa, mastiga sem pressa". Esquece, se perde..."Vou tentar de novo, calma! Achei que estava tudo bem...Não tá não."

É um verdadeiro ritual, tentando segurar a ansiedade até a próxima refeição! 


Fabiana Flôres










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