Saboreando o que não tem sabor

 

Já ouviu falar sobre ter vários "Eus" dentro de cada um de nós?

Não exatamente uma mudança de personalidade, mas o quanto nos adequamos, conforme o ambiente e pessoas a nossa volta.

E não é fingimento. Segue uma linha de como se comportar em determinado ambiente, local. Você não vai de biquíni ao dentista, vai? Bom, se sim, você é realmente uma exceção.


Mas voltando aos nossos "Eus", de tempos em tempos as minhas, digamos, Fabianas surgem com mais ou menos presença.

A Fabiana Corredora de rua.

A Fabiana Ilustradora.

A Fabiana Amiga.

A Fabiana Filha. 

A Fabiana Sobrinha. 

A Fabiana Corajosa.

A Fabiana Deprimida.

A Fabiana Sabotadora.

A Fabiana SEM autoestima. 

A Fabiana Compulsiva.


O time é grande. Daria pra fazer uma lista muito maior, mas vamos começar com essas. 

Tem períodos que muitas delas somem, assim, do nada. As Fabianas que ficam estão lá, fazendo seu trabalho. Mandando mensagem pra Mãe, ligando pras Tias. Manda meme praquela amiga que só ela vai entender a piada, junto com você. A que segue a planilha de treinos com alegria e orgulho. Parece que vai durar pra sempre, mas não dura. 


A campeã, a que bate o ponto, aquela que sai empurrando todas as outras da fila é a Compulsiva.

Ter transtorno de compulsão alimentar é difícil de explicar. Dependendo de quem pergunta, hoje em dia, nem perco meu tempo. É sério! Se a pessoa já começa com "Ah, mas você corre, você é magra. Para com isso!" Falas que a Fabiana Compulsiva me diz com frequência.

As Fabianas da Corrida de Rua e Corajosa se unem e vem com tudo! Mas elas não dão conta não. 

Aí chama as demais, e de novo, não dão conta.


A Fabiana Compulsiva - que tem compulsão alimentar chega de leve. Primeiro, ela estraga seu cardápio rasgando suas listas e dizendo que tudo aquilo é uma bobagem. Depois, ela te convence que não precisa fazer exercício: "Faz depois, faz amanhã!". 

Ela te relembra receitas de um paladar infantil como pudim de maisena e vitamina com frutas (eu sei, esse último é saudável. Mas todo dia pra quem já é 40+, não dá, né?).

Até a louça da pia ela te ajuda a empilhar "É só mais um prato. Pega ali outro, ah deixa tudo aí. Depois você arruma.". 

Para melhorar chega morrendo de saudades a Fabiana Sabotadora. Aff! Essas duas juntas, olha. Que combinação! 

Não satisfeita, a Fabiana Compulsiva convida quem pro café da tarde? A Fabiana Deprimida. E assim a festa continua! 


E não é "papo de louco". Brincadeiras a parte quanto essa questão de termos vários "Eus", na real são sentimentos juntos e misturados. São coisas que fazem parte da minha vida. 

E como posso EU MESMA me fazer mal? Pra quê tudo isso? Eu não entendo.


Aí para, respira. Mais uma vez.

Agora aquela respiração profunda, devagar. Sem pressa! Ufa!


Reunião das demais Fabianas. A Corredora, coloca todo mundo em movimento. A Ilustradora traz ideias novas. A Fabiana Amiga abraça, acolhe as outras. E a força que elas vão ganhando faz com que aquelas três ali (Compulsão, Sabotadora e Deprimida) comecem a sentir que não tem espaço. Muitas vezes demora...mas elas vão embora. 

Só que elas voltam. Elas se combinam, organizam muito bem o rolê e voltam naquele estilo: "Surpreeeesa!!". 


E eu, a Fabiana Flôres que tem todas elas dentro de mim vivo com esses conflitos constantes. Às vezes é mais cansativo do que correr 10km. 

Mas a terapia me ajuda a colocá-las todas em ordem. Ou pelo menos, em observação. Ter uma rede de apoio faz toda a diferença nessas horas também. 


Me olhar com mais atenção, cuidar com o que como, me vigiar. E tem que ser assim todos os dias. E principalmente: olhar para o que sinto, quando acontece e como eu reajo. Ter essa percepção consciente. E quando tudo parece estar em harmonia, em paz: "Ôh, de casa!! Cheguei!". A Fabiana Compulsiva aparece carregada de ansiedade, de críticas e de mãos dadas com a Sabotadora, dando as boas-vindas a Deprimida. E lá vou eu pedir ajuda pras outras. Mas nem sempre elas me ouvem de primeira. 



O que me resta é sentar e esperar pelas outras Fabianas, que elas cheguem juntas, fortes, decididas, confiantes! 

Mas o tempo delas não é o mesmo que o meu, e nem sempre elas chegam rápido pra me ajudar.


E essa espera fica longa e cansativa.

Fica longa e cansa. 

Cansa.


E aí começa tudo outra vez. 


Fabiana Flôres








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