Comida: mantenha uma distância segura!
O que é estar perto de alguém? "Venha, estamos te esperando. Quando você vem? E você vem no próximo final de semana?" Perguntas como estas já me foram feitas, indicando para estar perto. Mas, ao me aproximar, vinha rapidamente um "Você vai embora que horas?".
Comer algo que seja familiar, que traga memórias, que representem momentos. Sim, é isso que eu faço com a compulsão alimentar, na maioria das vezes.
Uma maneira de me aproximar de pessoas, de sensações e sentimentos. Mas, como toda compulsão, há um descontrole. A necessidade de se aproximar é tanta que nem toda a quantidade - já exagerada - consumida, compensa tamanhas ausências.
Cuidado ao tomar distância!
Pode parecer estranho isso, usar a comida para alcançar e preencher tamanho vazio. "Não seria mais fácil estar presencialmente com essas pessoas, nesses lugares, reencontrar esses sentimentos?", talvez você se pergunte.
E eu te respondo que não.
Percebi que estar a 20km, 50km ou 3.000km de distância, no fim, é a mesma coisa:”Será que estão com saudades?”. E as respostas…
Telefonema de 2 minutos.
Mensagem de áudio de 23 segundos.
Deu realmente tempo de dizer algo? Ou quem sabe até mesmo, mensagem alguma. Então, que diferença faz estar perto ou longe? Isso pra mim se tornou uma coisa só: desinteresse.
Não tem caminho fácil nisso tudo. O que se tem no final, é um exercício de desapego. Sim, parar de "lutar" com a indiferença recebida.
Fazer com que ela passe "despercebida", sem olhar pra trás.
Manter uma distância segura dos alimentos funciona? Não.
O que resolve mesmo, é estar perto deles e manter o controle e entender, que a aproximação ao comer não preenche esse vazio que te causaram. É bem difícil fazer isso, bem difícil...
E esse Vazio (com “V” maiúsculo - de voraz, vaidade, vício, violência, voz...) é você mesmo que tem que preencher. Com novas memórias, novos lugares, novas pessoas.
E mesmo sendo assim, tão enorme esse Vazio, achar uma caixa que caiba e guardá-lo junto com as fotografias antigas.
Porque ele não pode ser destruído, queimado, rasgado ou apagado. Mas ele pode dar lugar a algo que realmente te faça bem: ter paz. Respirar sem ansiedade. Respirar bem fundo mesmo, e se sentir leve. Dormir bem. Sorrir mais.
E os dias irão se seguindo, e você vai cada vez mais preenchendo esse lugar (ou buraco que cavaram em você - tendo você permitido ou não) aproveitando o espaço pra plantar e regar coisas novas. Um novo lar, novos amigos, um novo amor.
Fabiana Flôres
