Brigadeiro Vegano anos 80
Pois é, receitas veganas já me acompanham há décadas (riso irônico). Estou falando do brigadeiro que eu e meus irmãos fazíamos nos intervalos de “Curtindo a vida adoidado” assistindo na Sessão da Tarde pela décima quinta vez (ou talvez um pouco mais que isso).
Baita receita. Vamos aos ingredientes: batata-doce cozida, açúcar e um tal achocolatado famoso da época - isso mesmo, Nescau. Tá certo, fui pesquisar. Se vai Nescau não é vegano, …Mas era o que tínhamos no momento.
Confesso que preparei pela primeira vez um brigadeiro de panela aos 19 anos, na casa de uma amiga daquela época. Achei tão sensacional! Pra mim foi uma grande descoberta: tanto o preparo quanto o ritual entre amigas, dividindo aquela panela deliciosamente achocolatada.
Comentei no post anterior sobre os questionamentos de uma “profissional da área de saúde de alimentos nutritivos meramente ilustrativos” sobre a “necessidade” de datas comemorativas estarem obrigatoriamente envolvidas com COMIDA. Não é preciso um dia no calendário nacional para se celebrar uma boa companhia.
Quando estive ano passado para participar da Bienal Internacional do Livro de São Paulo. hospedada na casa de uma grande amiga, Elaine Sena (durante o lançamento do meu livro Tarcísio Tomate Neto, na qual fui só com a passagem de ida - mas isso é história pra outro post), durante uma de nossas conversas ela havia comentado sobre as formas de sua mãe se expressar (e até mesmo se comunicar) com ela, dizendo que vez ou outra, quando comenta algo do tipo “...Humm, que vontade de comer um arroz doce!”, lá vem ela trazendo. E eu presenciei este momento: lá vinha dona Marlene trazendo pra nós o arroz doce com seu toque especial.
Interessante como um alimento pode fazer isso conosco. O aroma, o sabor, até mesmo o preparo…Podem nos transportar no tempo, nos levar para épocas e lugares fascinantes. Nos deixar saudosistas.
Sinto que este é um dos motivos (eu disse “um dos” e não só) que fazem parte do processo de compulsão alimentar. Uma necessidade tão grande de voltar lá, naquele tempo, naquele lugar, com aquelas pessoas. Estou falando por mim, é o que eu sinto.
Uma recordação maravilhosa que tenho também da infância são nossos sábados: eu, minha mãe e meus três irmãos. Sábado era dia de bolo!! A gente correndo pra lá e pra cá, e de repente, eu percebia aquele barulho: a mãe ligou a batedeira.
Deixava discretamente o ambiente de brincadeiras e corria pra cozinha. Ficava ali, olhando, mexendo uma coisa ou outra, fazendo perguntas…mas no tempo certo: perto do finalzinho da batedeira ser desligada. A mãe ainda gritava alto (pros outros também ouvirem) “Quem quer raspar a batedeira?”, e eu ali, prontamente respondia que queria. Era a “primeira a chegar”, então, pelas regras criadas por mim mesma, era tudo meu!
Não era só pelo sabor. Era estar perto da minha mãe, era dar o elogio que ela tanto esperava “Nossa, Mãe! Tá muito gostoso!!”, o cheiro maravilhosamente hipnotizante. Um momento realmente mágico.
Tratar com mais gentileza quem tem transtorno de compulsão alimentar, é o que venho aqui te dizer. Não deboche, não minimize. Não pense que é falta de vontade ou bobagem. Perder o controle de algo que era pra ser tão maravilhoso e que nos rodeia diariamente (comer, ver pessoas comendo, preparar comida, ver vídeos e fotos de comida) não tem nada de engraçado. E não é simples de se resolver (se é que um dia a gente resolve).
Acho mesmo que aprendemos a conviver. Como já apresentei pra vocês, Val (personagem do transtorno alimentar) está comigo todos os dias. Mas é todo dia, o tempo todo. No café da manhã, no lanche. Naquele sorvete com uma amiga, no jantar na casa de familiares. Se ausentar de eventos sociais é parte da rotina de quem convive com transtorno de compulsão alimentar.
É difícil estar junto, se controlar, se conter. Perder o foco da companhia de seus afetos, perder o momento que os demais estão vivendo enquanto você está ali mentalmente dizendo “Não vou pegar mais um, não vou…” . Insisto em dizer, parece bobo, talvez até engraçado. Mas não é. E nos dias felizes comendo o ideal, olhando ao seu redor e vendo na geladeira ou no armário as comidas da semana e apenas dizer: “Tá tudo certo. Eu não preciso de mais.”, isso sim é um dia mágico pra mim. Hoje, só por hoje, eu venci.
Ah, e experimentem o “Brigadeiro Vegano anos 80”, mas recomendo: troquem o famoso achocolatado por cacau…e PAREM de chamar de brigadeiro - por favor, risos!! É apenas um docinho de batata-doce chocolatemente saborizado. Até a próxima! ;)
Fabiana Flôres
Ilustradora - Escritora - Designer e
Corredora de Rua Amadora TCA
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