“De Fabiana, Para Fabiana” - Como me resgatei com cartas que escrevi pra mim

Dia 19 de janeiro deste ano de 2026, eu estava num grande dilema pessoal: a maioria de minhas roupas estavam, ou apertadas demais ou simplesmente nem cabiam mais em mim. Aí vem aquele papinho “Ah, exagerou do réveillon!”, “É só comer direito, se exercitar, meditar, agradecer ao universo e repetir isso todos os dias…”. Tem de tudo, você sabe. Conversar com alguém sobre seu peso, sobre como se sente com sua auto imagem sem ser julgada é muito difícil, eu diria até mesmo raro. Por que não se trata de um “deslize” qualquer de exagerar naquela feijoada de sábado ou todos aqueles bolos e docinhos do aniversário que você foi, não! Não é sobre isso que estou falando. A compulsão alimentar, como já disse em meus textos anteriores (recomendo a leitura, caso não tenha visto ainda), que ela está sempre ali, do meu lado, esperando pela distração, por aquele deslize e sem perceber, se repete e de novo, e de novo…Sem você se dar conta que não é apenas uma “exceção” ou um “pequeno exagero”. Estou falando de um descontrole tamanho que me faz sofrer pensar na ideia de ter que ir ao mercado, por exemplo. E todo mundo vai ao mercado, não é mesmo? Sua geladeira não fica “magicamente” cheia, nem sua cesta de frutas. Ter que fugir de certos corredores com produtos que você quer evitar, e aquelas gôndolas lado a lado com você na fila do caixa. Me dá uma certa aflição, quando estou em crise - que duram vários dias, às vezes até meses. 

Mas voltando ao início do ano, fui a um endócrino. Exames e mais exames. Enquanto isso, me sentei e na mesa tinham folhas, canetas e canetinhas. Eu sempre escrevo pra mim, seja listas de compras, lembretes do que fazer no dia ou mensagens como “13/12/2024 Faltam 2 dias para Aracaju” - meu lembrete de contagem regressiva da saída de Santa Catarina para Sergipe. Comecei então, mais uma vez e de novo, alguns cartazes pra mim (deixo na porta da geladeira, pra olhar pra eles TODOS OS DIAS!). Meu peso atual, lista dos meses com campos para preencher com metas realistas, me dando tempo de pelo menos em 6 meses voltar a um peso que considero BOM. E o que é bom pra mim, nem sempre é bom pro outro, então evito aqui de colocar medidas e quantidades. 
De janeiro a maio, me saí muito bem! Estava no caminho alcançando a meta mês a mês. Rotina de corrida e caminhada em dia, remédios diários (que tomo para depressão e outras questões), ordenando as finanças pouco a pouco, mês a mês me organizando (finalmente!), terapia em dia e assim, começou um outro sentimento: o medo de tudo isso “desandar”. Me perguntava “Será que vou perceber quando não estiver indo tudo bem? Quanto tempo esse momento tão bom vai durar? E se tudo começar a dar errado de novo, a compulsão voltar e tudo mais que acompanha ela, será que vou conseguir mais uma vez?”.

 Bom, meu planejamento de visitar Santa Catarina era (sendo bem honesta) para daqui há alguns bons anos - e por várias questões, não apenas financeiras, mas que ficam para um próximo encontro literário. Só que a vida…Ah! A vida, é ela que manda, não você. 
Meu Pai já estava com a saúde fragilizada há muitos anos, e foi se agravando. Sem entrar nos detalhes aqui, ele fez uma operação. Houveram complicações seríssimas no pós-operatório. Aí foi UTI, intubação…E lá fui eu de volta à minha terra natal. Para surpresa de muitos, fiquei hospedada em um hotel há alguns passos do hospital onde meu Pai estava, afinal, fui especialmente pra ficar com ele. 
Quando cheguei, ele já tinha sido extubado, mas continuava na UTI. Todos os dias que fiquei lá, ia nos dois horários liberados para visita, ficando com ele o tempo máximo possível. No meu último dia, ele então lúcido, me reconheceu e percebeu minha presença ali, até então, devido a morfina e outros medicamentos ele ficava um tanto entorpecido. Tentou falar comigo, mas devido a retirada da intubação, a fala foi comprometida. Apesar disso, eu entendia o pouco do que ele sussurrava. Quando disse a ele que já estava indo lá ficar ao seu lado há vários dias, ele fez uma expressão de surpresa e com os olhos lacrimejados - como disse antes, até então não estava totalmente consciente. Foi difícil, pois pra ele eu tinha acabado de chegar - e esse era o dia de partir. Nas visitas que fiz e que ele estava dormindo, cantei pra ele alguns dos clássicos sertanejos que ele tanto gostava, como Milionário e José Rico. Cantava e chorava. Até que chegou a hora, e voltei pra casa, em Aracaju.

Algumas semanas depois eu estava de volta a Santa Catarina, pois recebemos a notícia do agravamento de seu estado e que, infelizmente, poderia vir a falecer a qualquer momento. Fiquei em choque. Uma grande amiga me disse "Vai, e agora mesmo!". Foi angustiante, mas consegui chegar a tempo. Eu conversava com ele mentalmente, dizendo pra me esperar. Tudo bem, você pode rir ou achar isso sem sentido, mas me ajudava a acreditar que eu chegaria sim a tempo de vê-lo, pelo menos, mais uma vez. 
Bom, é complicado. Cheguei no domingo e fui visitá-lo com meu irmão mais velho, ele já havia saído da UTI fazia alguns dias, estava no quarto. Na segunda-feira, passei o dia todo com ele, inconsciente, e com um respirador para auxiliar seus pulmões, pois estava muito fraco. Resolvi que conversaria com ele com se estivesse lúcido, como se fosse um dia "normal", então, a cada mensagem recebida eu falava pra ele. Colocava o celular pertinho pra que pudesse ouvir os áudios de despedida recebidos dos parentes. Até ligações no viva voz fizemos (nada de vídeo, seria além de inconveniente, imoral). Quem chegava para vê-lo eu dizia “Olha, Pai, quem veio ver o Senhor!”. Assim foi toda a manhã. No meio da tarde não consegui mais ficar, algo estranho aconteceu. Me sentia fraca, angustiada…Fui tomar um ar no corredor, estava até meio zonza. Acabei indo embora. Ele faleceu naquela madrugada. 

A vida é muito estranha. Confesso que ainda não me dei conta que não irei mais vê-lo, apesar de estar totalmente consciente disso, pois estive presente por toda a madrugada de seu velório e depois, no seu sepultamento. Eu o vi, me despedi. Mas não sei, tem algo aqui que não entendeu ainda que ele morreu. E além disso, outras coisas mais foram acontecendo. Questões familiares muito sérias e complicadas de serem acordadas, resolvidas. 

Depois de mais ou menos 1 mês do meu retorno a Sergipe, é que senti que finalmente tinha voltado pra casa, que fui me dar conta da minha rotina, de meus compromissos profissionais e no meio disso tudo, voltei à estaca zero (de novo!).
Parei a atividade física, voltei a comer de forma descontrolada, um sono terrível, ansiedade, uma luta diária para manter tudo em ordem com as entregas de trabalho acordadas. 
E foi aí que lembrei das minhas anotações, diria até mesmo uma espécie de cartão que fiz pra mim mesma, que na capa diz: “Fabiana, lembre-se: como você perdeu X quilos em 4 meses." Tinha lista das coisas que havia deixado de comer e as que eu deveria diminuir a quantidade - sendo um pouco gentil comigo mesma. Lista das substituições de alimentos, também uma lista dizendo “Melhorei” com as distâncias de corrida e caminhada, além do “ir menos ao mercado. Rotina: spirulina, psyllium, chia. Mais limão. Mais azeite de oliva." E ainda um recado especial que intitulei com “Vale me lembrar:” 
Parece que você não vai conseguir: MAS VAI SIM! 
É bem difícil, principalmente no começo. 
Sensação de angústia, de “abstinência”. 
Pegar produtos na mão, parar, pensar e não comprar. 
Desinstalar iFood. 
Não abrir exceções. 
Não se abalar por críticas.  
Não comer certas coisas me torna menos social: aceitar! 
Aceitar que certos alimentos NÃO COMEREI MAIS! 
Seguir com disciplina: lembrar que só você ganha!
Lembrar que vale a pena <3 “

E assim estou eu de novo a me olhar com mais cuidado e principalmente, paciência. Muitas vezes abraçamos e acolhemos uma amiga, alguém especial que precisa de atenção, pois está passando por um momento difícil. E por que não fazemos isto conosco?
Fiz também uma outra lista (sim, eu realmente gosto de listas) que diz além da principal questão que foi a perda do meu Pai, de também citar os períodos com falta de medicação, as “turbulências” familiares, as preocupações financeiras e coisas corriqueiras como listar períodos de TPM ou os dias de chuva (que interferem nas caminhadas e corridas que faço). É uma lista grande, pra eu me lembrar que não é “falta de vontade” ou até mesmo "preguiça". Não. Era eu me lembrando do ambiente externo e todas as coisas acontecendo ao meu redor - e na minha cabeça, que também interferem na minha disciplina e no cuidado comigo mesma. 
Tudo isso tem me ajudado demais (além de raras amizades e minha terapia semanal), mas falando especialmente dos lembretes, deixo essa mensagem pra você: anote. Escreva como se sente e o que faz você ficar assim, o que acontece com você quando está bem. 
Isso vai te ajudar a se lembrar de que você pode ter mais leveza na vida, principalmente quando tudo “desanda”. 
Me sinto ainda “rolando ladeira abaixo", até mesmo emocionalmente, decepcionada comigo. Mas eu mesma fui lá me resgatar. Entreguei pra mim os meus bilhetes e sorri agradecendo por que de novo e mais uma vez, vou recomeçar. E sei que esta não foi a última vez, mas, continuarei a deixar bilhetes me lembrando que sim, eu sei que consigo!

Fabiana Flôres 
Ilustradora - Escritora - Designer 
e Corredora de Rua Amadora TCA 
Transtorno de Compulsão Alimentar

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